OPINIÃO

Turismo, predestinado a ter alto impacto social

“Não teremos um Turismo de massa no Brasil sem uma classe média forte”. Fiz essa afirmação recentemente em entrevista que concedi às “páginas vermelhas” da revista Economy&Law, publicação que tem como maior público empresários, juristas e políticos do Brasil. Foi um dos argumentos que usei para responder à questão levantada pelos jornalistas da revista: “Com o crescimento do Turismo teríamos impactos sociais importantes?”

Minha resposta foi positiva, mas lembrei que se quisermos ver um país mais justo, teremos que aumentar salários e isto se faz aumentando a demanda pelo trabalho e melhorando a produtividade. Aliás, como a discussão política no Brasil por muitas vezes deseduca em vez de educar, são poucos os que falam na relação entre produtividade e ganho social – como um país que tem uma produtividade per capita de ¼ dos países desenvolvidos pode sonhar viver nos mesmos patamares? Daí emerge o pesadelo brasileiro.

Repito: não teremos um turismo de massa no Brasil sem uma classe média forte. E não se constrói classe média forte sem aumento de produtividade. A produtividade e a escala são fundamentais para podermos ser mais competitivos em preços no mercado internacional, é um mercado muito competitivo, e com isso, além de trazermos turistas estrangeiros, fazermos com que mais brasileiros tenham acesso ao Turismo. Lideranças como a Chieko Aoki e Luiza Trajano defendem muito esse ponto, de um turismo mais eficiente e acessível.

Mas não é possível mudar as consequências sem mudar as causas. Nisso, o Turismo pode ajudar muito, ao gerar empregos e compensar o aumento de automação e mecanização que é natural em outros setores. Então, precisamos desamarrar e apoiar o Turismo do Brasil também por uma questão social. Se hoje temos o maior potencial, o ambiente de negócios ainda está entre os piores do mundo.

Enquanto isso, os líderes mundiais do Turismo enxergam o Brasil como um dos cinco maiores potenciais do planeta. Comecemos com uma pergunta simples: quantas centenas de bilhões de dólares deixam de ser investidos no Brasil todos os anos, por questões burocráticas e de falta de eixos de prioridades de país? E isso não apenas no Turismo diretamente, mas também em infraestrutura, de forma geral.

Neste ponto os jornalistas da Economy&Law me questionaram se o conceito de “Economia do Visitante” engloba tudo o que o Turismo vem se tornando no planeta. Disse a eles que esse novo conceito que estamos ajudando a difundir no Brasil traduz as possibilidades e a dimensão que o Turismo tem atingido e ampliará nos próximos anos. Significa que o Turismo potencializa não apenas a Economia do Turismo em si, com suas atividades diretas, indiretas e induzidas, mas também proporciona escala para muitos outros empreendimentos a partir dos visitantes e turistas.
Esportes, entretenimento, festas e eventos de grande porte, que acontecem porque contam com a adição do público e movimento proporcionado pelo Turismo, viabilizando a sua realização: são os casos da F1, dos Congressos e Feiras, de festivais como o Rock in Rio, Lollapalooza e o The Town, que será realizado em São Paulo. Tudo isso é Economia do Visitante, que inclui ainda uma multitude de serviços de apoio, incluindo publicidade, consultoria, inteligência de mercado, possibilitados por esta escala econômica adicional que o Turismo proporciona.

Muitos falam da recuperação que teve a cidade de Nova Iorque – mas isso não seria possível sem os US$ 70 bilhões que são trazidos por 65 milhões de visitantes anualmente. Os visitantes no Turismo funcionam também como multiplataforma para toda a economia, inclusive para as indústrias. Um caso brasileiro, a Serra Gaúcha, é onde se vê o Turismo elevando e potencializando toda a indústria da região.

Esse pensamento sobre a Economia do Visitante levou à questão seguinte: o desenvolvimento do Turismo no setor privado, os novos modelos de negócio, que são tendências para o futuro. Na minha opinião, o Turismo no Brasil obrigatoriamente terá que se desenvolver de forma cada vez mais integrada com outros segmentos de negócio, como acontece nos melhores destinos do mundo; e o primeiro a propor isso deve ser o setor público. Esta sensibilidade deve ser aprimorada, pois as cadeias produtivas vivem emperrando no Brasil.

A produtividade dos sistemas sendo baixas, os custos sobem. Os transportes aéreo, rodoviário, ferroviário e a navegação marítima e fluvial, por exemplo, não podem ser pensados como segmentos estanques e sim como a conectividade integrada, uma indústria de bilhões que é fundamental para a economia global e brasileira, aonde o Turismo e as Viagens são esteios e protagonistas.

Outro exemplo é o segmento imobiliário integrado ao Turismo, dominante hoje globalmente, com participação de fundos de investimento, de um planejamento integrado de hotelaria, moradia, parques, atrações, propriedade compartilhada. Não tratamos mais do Turismo à moda antiga e sim da “Economia do Turismo”, que se define pelo sentido novo da “Economia do Visitante” e tudo que daí emerge.

Porém, enquanto o Brasil não enxergar tudo isso, continuará a ser apenas um dos grandes potenciais turísticos do planeta. Há como fazer, é possível – e mostramos como é exequível nos nossos quatro anos de gestão na Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo.

Texto: Vinicius Lummertz – ex-ministro do Turismo

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