PÚBLICO Brasil – Carlos Vasconcelos
Há mais de 40 anos vivendo entre Brasil e Portugal, a cantora Fafá de Belém, que foi nomeada Embaixadora da Boa Vontade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), na XIV Conferência de Chefes de Estado e de Governo, realizada na Guiné-Bissau em julho deste ano, receberá a distinção nesta terça-feira (28/10), às
16h, no Palácio Conde de Penafiel, sede da CPLP, em Lisboa.
A artista de 69 anos, que, em 2018, comprou um apartamento na capital portuguesa, se diz honrada com o título e promete continuar levando à frente o projeto Mulheres na Lusofonia, criado por ela há seis anos, mas que só foi lançado no ano passado.
“Queremos que elas cantem pelo mundo lusófono e que levem suas vozes para o
Brasil”, diz Fafá.
Em entrevista ao PÚBLICO Brasil, Fafá também fala sobre xenofobia em Portugal, sobre o burnout que sofreu em janeiro passado e critica a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), que será realizada em novembro deste ano, em Belém, sua terra natal.
A intérprete ainda repercute as supostas irregularidades no uso de verbas públicas para organizar o Varanda de Nazaré, evento que ela promove há 15 anos, durante o Círio de Nazaré, e mostra o orgulho de ver uma das netas, Laura, no musical que estreará no início do ano que vem, no Rio de Janeiro, sobre a sua vida. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.
Você vai se tornar oficialmente Embaixadora da Boa Vontade da CPLP. O que representa essa homenagem?
É uma honra gigantesca, porque, há seis anos mais ou menos, eu desenhei um projeto chamado A Voz da Mulher na Lusofonia. E isso andava para frente, andava para trás, e, finalmente, no ano passado, conseguimos fazer em Lisboa, no CCB (Centro Cultural de Belém), com o apoio da CPLP, do Instituto Camões, do Governo do Brasil e da Secretaria de Cultura de Lisboa, esse espetáculo. São mulheres da lusofonia, algumas conhecidas, outras, nem tanto, e o meu interesse é que o Brasil conheça essas vozes que, em Portugal, existem, mas, no Brasil, tem um filtro para chegar lá. É um país distante e algumas não têm condições de mostrar seu trabalho lá.
E elas são de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Angola, Timor-Leste, Brasil e Portugal. Entendo que muitas dessas vozes femininas se apagam com o tempo. Por exemplo, a do Timor Leste teve de fugir para Londres depois de sofrer vários abusos do marido. Hoje, ela é uma diarista em Londres. Então, queremos que elas cantem pelo mundo lusófono e que levem suas vozes para o Brasil. Acho que eu recebi essa honraria por causa dessa luta, de poder falar por essas mulheres, com essas mulheres e fazer com que a voz delas atravesse todos os oceanos.
Pela sua proximidade com Portugal, qual é a sua opinião sobre a xenofobia que vem crescendo no país e sobre essas leis anti-imigração?
Acho que há uma extrema-direita doentia não só Portugal, mas no mundo. Mas quando o português saiu daqui para ser mão de obra no Brasil, por exemplo, ele foi respeitado. E há uma lei, que não é de hoje, de reciprocidade. É sobre isso que entendo que deve ser a nossa discussão. Nós não somos cidadãos de segunda categoria. Isso, para mim, é uma discussão que vai além dessa direita completamente xenofóbica. É um assunto de Estado, de relações internacionais.
Você tem feitos críticas à COP30, que será realizada em novembro, em Belém. Por quê?
Acho que não está tendo um abraço a quem vive e sobrevive da música, que leva e traz essa música na origem e que vive dos espetáculos em Belém. Estou vendo grandes projetos sendo feitos por gente de fora e não estou vendo nenhum movimento abraçando quem realmente traduz a cultura transversal de Belém. Eu fui chamada agora para fazer alguns eventos e todos terão música paraense. De Waldemar Henrique (maestro pianista e compositor – 1905-1995) ao tecnobrega, com pessoas que trabalham incansavelmente na cultura paraense.
Nós tivemos um evento gigantesco, o Amazônia Live (em setembro passado, como arte da COP30), em que montaram uma planta (em formato de vitória-régia) com 90 toneladas de ferro, num braço de rio. E os ribeirinhos foram todos retirados e proibidos de estarem presentes para assistir ou para pelo menos ouvir aquela música, enquanto que, em frente ao palco, foi colocada uma balsa de convidados VIPs. É uma leitura totalmente equivocada. O ribeirinho é parte da nossa cultura.
Não fui convidada, e, se fosse, jamais aceitaria fazer parte de um projeto desse. E esse palco, essa sucata continua abandonada à beira do Rio Guamá. Mais uma vez, a Amazônia é usada apenas como cenário e os ribeirinhos, os quilombolas, as comunidades indígenas, homens e mulheres da periferia da cidade, ninguém pôde assistir a esse espetáculo.
Talvez, quando começar realmente a COP30, espero que as pessoas que fazem a cultura diariamente em Belém, como os poetas, os músicos locais e os grupos de carimbó, possam ser olhadas e entendidas como são de verdade, sem caracterização.
Não somos alegoria de festa de grã-fino. Não temos uma pena de LED enfiada no figurino. Assim, não haverá legado.
Você foi acusada de usar verbas públicas para realizar o Varanda de Nazaré, durante o Círio de Nazaré, e já negou o caso. Mas o que houve?
Ano passado, plantaram uma nota no Diário Oficial do Pará dizendo que tinha sido liberado para o Varanda de Nazaré uma verba, e nomeando uma proposta dentro da Lei Semear, que é como se fosse uma Lei Rouanet, só que estadual. Não se pode misturar a Lei Semear com dinheiro público. E eu nunca usei dinheiro público. Nós entramos com uma ação, houve uma retratação por parte da Setur (Secretaria de Estado e de Turismo) esclarecendo o equívoco e, para mim, é assunto morto. Mas a inveja é uma coisa horrorosa. Quando você cresce dentro de um projeto, onde você não depende de ninguém, nem pede licença e não convida determinadas pessoas da elite, sofre represálias. Há 15 anos eu tenho a Varanda de Nazaré e nem a minha família é convidada, porque é para as pessoas de fora entenderem o que é o paraensismo.
Mas todo ano eles inventam alguma lorota, porque tudo se resolveria se eu desse dois convites para estarem comigo. Mas não serão convidados. Eles que lutem. E ano que vem vão inventar outra coisa. E eu sigo no meu caminho. Eu sei quem eu sou.
Há 50 anos eu levo o nome do Pará para o mundo. Nunca me vendi. Nunca fiz graça.
Nem aliança com quem não respeito. Jamais vou concordar com qualquer coisa que ofenda a minha moral ou a minha dignidade. A Justiça e os advogados cuidam disso. Quando vi essa nota publicada no dia do Círio de Nazaré, eu tive um ataque de riso.
Em janeiro, no Teatro Riachuelo, no Rio, vai estrear um musical sobre a sua vida. Pode falar um pouco sobre esse projeto?
Uma das minhas netas (Laura) vai me representar quando eu era criança. É um orgulho. Eu já li o texto e fiquei muito emocionada, porque vão ter coisas no musical que nunca foram ditas, e que serão explicitadas. E, com 69 anos, posso abordar assuntos que, lá atrás, não podia falar por medo de ser cancelada. Eu já fui muito cancelada pelas minhas verdades. E, no início do ano, tive um burnout violento. Sou uma pessoa muito sensível, e não exponho minha vida privada nas mídias. Então, sofri algumas decepções, que me levaram a um burnout.
Mas, com uma carreira brilhante e irretocável, hoje eu olho para trás e me orgulho dela profundamente. Nunca fui obrigada a fazer nada para obter sucesso. O meu marketing é o meu coração. Eu faço o que sinto. Então, quando saí desse burnout, voltei a fazer terapia e vi que sou muito maior que qualquer coisa. Não existe ninguém da Amazônia que tenha 50 anos de carreira com a solidez que eu tenho. Entendo que sou uma pessoa que merece respeito.
Por: Elizabete Antunes – https://www.publico.pt



