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Serra da Barriga atrai turismo e reconhecimento cultural para Alagoas

Para comunidade quilombola, reconhecimento do Mercosul é muito simbólico para o movimento negro, demonstra o respeito aos ancestrais que tanto lutaram pela liberdade
Texto de Júlya Rocha

“É necessário resistir e acreditar, mesmo quando às vezes o mundo parece não acreditar mais em sonhos”, disse Mãe Neide. Se pudéssemos expressar em apenas duas palavras o reconhecimento que a Serra da Barriga teve nos últimos dias, seriam elas: resistir e acreditar.

 

A Terra de Zumbi dos Palmares, o herói negro que foi assassinado em 20 de novembro de 1695, reconhecido como um dos maiores símbolos da resistência negra da história do Brasil, é hoje considerada Patrimônio Cultural do Mercosul. Sede de lutas e conquistas, a Serra tem cravada em seu solo a história de um povo que lutou, e ainda luta, pela igualdade racial.

 

A escolha foi realizada durante a XIV Reunión de la Comisión de Patrimonio Cultural do Mercosul Cultural, com candidaturas da Colômbia, Equador e Venezuela, que também apresentaram sítios de interesse para a valoração da contribuição africana no continente sul-americano, na proposta La Geografía del Cimarronaje: Cumbes, Quilombos y Palenques del Mercosur.

 

Para o presidente da Fundação Cultural Palmares, Erivaldo Oliveira, o título de Patrimônio valoriza ainda mais a cultura afro-brasileira. “O reconhecimento do Mercosul é muito simbólico para o movimento negro, demonstra o respeito aos nossos ancestrais que tanto lutaram pela liberdade”, afirmou.

O presidente ressaltou ainda que o reconhecimento da Serra da Barriga pelos países do bloco que participaram da votação foi unânime. “Isso, sem dúvida, tem muito valor. Em cada manifestação favorável à Serra da Barriga, ouvíamos sobre a importância de preservar a cultura afro-brasileira”, disse.

 

E ainda há muito o que conquistar. No próximo ano, segundo Oliveira, a Serra da Barriga deverá concorrer a patrimônio mundial da humanidade, título oferecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

 

Tal reconhecimento, além de ser mais um presente para Alagoas no ano do seu Bicentenário, movimentou e emocionou as organizações e entidades de vários segmentos culturais do Estado. É o caso da Ialorixá e Mestra do Patrimônio Vivo do Estado, Neide Oyá d´Oxum. Uma das maiores lutadoras pela preservação e valorização da Serra da Barriga e da cultura Afro Brasileira.

 

“É uma realização como mulher negra, militante e remanescente. Esse reconhecimento de uma amplitude muito grande, pois valoriza o povo de Zumbi. Além de trazer também muita geração de emprego, pois o turismo vai melhorar, a Serra vai ser vista com outros olhos, com os olhos do amor. Acho que todo povo brasileiro esperava por isso”, pontua. “A Serra é um santuário de amor, de fé, de fé, de resistência. Agradeço a Deus e a minha ancestralidade todos os dias por permitirem que eu durma e acorde nesse solo sagrado”.

 

Para a Secretária de Estado da Cultura Mellina Freitas, o título representa um grande avanço para a cultura como um todo. “O fato da Serra da Barriga ser um símbolo da luta pela liberdade e resistência negra é indiscutível. O reconhecimento como Patrimônio Cultural do Mercosul representa um marco para Alagoas e eleva a autoestima da nossa população, o que desperta o sentimento de pertencimento, fomentando a cultura e o turismo em todo o Estado”.

Desde o ano de 2015, o Iphan luta para tornar a Serra da Barriga um patrimônio do Mercosul e, para isso, convidou pesquisadores para a formulação de um dossiê que apresentava a história, as características atuais e a importância do local como referência geográfica, cultural e histórica. O grupo de trabalho responsável para a candidatura da Serra da Barriga como Patrimônio Cultural do Mercosul, foi coordenado pelo assessor de Relações Internacionais, Marcelo Brito, e contou com vários colaboradores, entre eles  a Técnica para Educação Patrimonial do Iphan, Greciene Lopes .”Viemos realizando esse trabalho desde 2016. Foi um processo longo, mas é muito gratificante ter o primeiro bem alagoano a ter uma título internacional”, comemora.

SIMBOLISMO

Ele é reconhecido como o maior ícone da resistência negra à escravidão. Zumbi dos Palmares nasceu em 1655 e liderou o Quilombo dos Palmares, comunidade livre formada por escravos fugitivos das fazendas no Brasil Colonial. Localizado na região da Serra da Barriga, atualmente integra o município alagoano de União dos Palmares.

Zumbi, cuja morte se deu em 20 de novembro de 1695, motiva a celebração em todo país do Dia da Consciência Negra.

ACESSO

A Serra da Barriga localiza-se no município de União dos Palmares, Zona da Mata do Estado de Alagoas, Brasil. Ocupa uma área de aproximadamente 27,92km². Com extensão de 8 km, a via promete facilitar o deslocamento de moradores e visitantes, o que facilita o turismo em toda região. Isso acontece graças ao Governo de Alagoas, que no dia 7 de fevereiro oficializou a realização da pavimentação do acesso à Serra da Barriga, em União dos Palmares. A ideia é fortalecer o sentimento de pertencimento entre a população e colocar mais uma vez o município no mapa do turismo alagoano.

 Foto: Thiago Sampaio

A expectativa é que a obra seja inaugurada no dia 20 de novembro, em homenagem às comemorações do Dia da Consciência Negra e aos 200 anos de Emancipação Política de Alagoas.

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